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dez segundos

uma mulher, sempre à procura de se melhorar, com algumas coisas para dar e muito para receber.

dez segundos

uma mulher, sempre à procura de se melhorar, com algumas coisas para dar e muito para receber.

31
Mai17

os meus meninos - 3

miss queer

vamos aos meninos!

 

C. - lembram-se de todos os diagnósticos que falei no primeiro destes posts? o C. tem todos. ainda assim, é um dos meninos com quem tenho mais prazer em trabalhar! mas vamos à apresentação. C., 10 anos, 4.º ano. classe média-alta. quando me disseram que ia começar a trabalhar com ele, apresentaram-mo como sendo uma criança «insuportável, detestável e muito complicada», como não tendo amigos e sendo pouco sociável. bem... comigo o C. é uma criança amável, bondosa, comunicativa. falamos sobre livros, filmes... já me descreveu a sua casa, o quarto, uma cadeira que o namorado da avó lhe deu. tem frases como «esta pergunta é um pouco filosófica». e já fez um amigo, com quem vai brincar todos os fins de semana! nunca teve uma palavra menos correta para mim. melhorou consideravelmente na escola, mas a felicidade dele em ter feito um amigo... é partilhada! e contou-me que na turma andavam a preparar partidas para pregar uns aos outros na viagem de finalistas. o sorrisinho malandro dele ao falar-me de todas estas coisas é de deixar o coração cheio. fico a vê-lo atravessar a rua com um sorriso (não só nos lábios, acho que se estende aos olhos), o que me valeu que, num destes sábados, uma menina (mulher, senhora, como quiserem) sorrisse para mim e me dirigisse um alegre «bom dia!». não, não era para si que eu estava a sorrir, mas bom dia! acho que sou mesmo uma mãezinha para ele.

 

PP - 13 anos, 7.º ano, ensino privado, classe média-alta. também tem todos os diagnósticos apresentados. é dos mais complicados de pôr a trabalhar, principalmente na construção de textos. vi a mãe uma vez. do pai sei que é uma besta. vive com o PP e restante família. trabalha, leva-os a passear. mas afeto, carinho? no dia do aniversário do PP, levantou-se e limitou-se a dirigir um «olá» ao filho. não lhe deu os parabéns. é normal que o miúdo fique afetado ao viver com uma pessoa destas. é normal que se feche no seu mundo. o PP tem poucos amigos, segundo me conta. e não fala com ninguém no centro, mesmo que se dirijam a ele. mas fala comigo. conta-me histórias das viagens que fez. conta-me histórias que leu. se lhe pedir para construir uma história, ele não tem qualquer problema em fazê-lo. o problema é escrever. mas lá o convenço. nem que tenha de construir duas ou três por explicação. e durante aquelas horas, o PP tem uma amiga.

 

PD - 14 anos, 9.º ano. classe média-alta. pais divorciados, dislexia, PHDA. tem muita capacidade para ter boas notas, mas falta-lhe deixar a preguiça de lado. os pais nunca estão de acordo (para a mãe ele é um menino de ouro, para o pai é um diabo). é aquele com quem eu falo sobre roupa, penteados... pede-me opinião sobre tudo antes de tomar uma decisão! a semana passada, ao ver-me fora do estilo habitual (jardineiras de ganga com rasgões - como diria a minha avó «a tua mãe sabe que saíste assim de casa?!» -, uma t-shirt e paez), comentou logo «a professora hoje está cool!». tivesse mais estabilidade em casa e teria muito potencial a ser explorado! é um baterista com muito talento, bom ator, pasteleiro... mas desiste de tudo e refugia-se na comida (a comer e não a fazer). cada vez que tenho de me chatear com ele, fico de coração partido, pois sei que já tem muitas pessoas a fazê-lo. mas sendo um aluno com capacidade para «bom», fico triste quando me traz «suficiente». não por querer exigir muito dele, mas por ele se andar a contentar com o mínimo para ele. e se começa assim na escola, irá aplicar a tudo na vida. somos como irmãos, é o primeiro a notar as minhas mudanças e eu a primeira a quem ele vem mostrar as dele. é daqueles que traria para casa (e o C., o K. e mais meninos que ainda não conhecem.).

30
Mai17

os meus meninos - 2

miss queer

hoje continuamos com três meninas!

 

A. - 15 anos. classe média-alta. está no 9.º ano, num colégio privado. está atrasada um ano porque emigrou com a família para os EUA em pequena (sendo assim o inglês a sua primeira língua) e, quando regressou, teve de ingressar na escola um ano atrás do que deveria estar. pratica ballet e é muito boa, segundo diz, apesar de não ter o corpo típico de bailarina. na escola, é uma aluna mediana. a sua autoestima é inexistente. sempre que tem uma avaliação no ballet, os pais fazem questão de lhe dizer «porque é que és tão boa no ballet e na escola não?». para ajudar, a irmã mais velha estuda medicina. para ela, todos são melhores do que ela o que, por vezes, leva a A. a desejar ser outra pessoa. com ela, já deixei explicações só para conversar. e, segundo disse, contou-me mais do que conta à psicóloga. voltarei a fazê-lo as vezes que forem precisas, porque a A. é capaz de muito mais, só precisa de acreditar nela e que acreditem nela. o desejo de atingir a perfeição, essa utopia, é tão grande, que ela não consegue ser feliz. mas sabem aqueles pequenos momentos em que a vejo sorrir? para nós valem muito! somos também como duas irmãs - apesar de ela insistir em tratar-me por «você»! se os pais fossem menos críticos e menos controladores - a A. tem de contar cada passo que dá, no minuto em que dá -, talvez ajudasse a que ela ganhasse um pouco mais de confiança.

 

LP - 13 anos. classe média-baixa. 8.º ano. tem dificuldades a perceber português, em interpretar um texto, mas não tem nenhum diagnóstico. não estuda sem ser aquela hora que está comigo durante a semana. a família não quer que ela tenha mais do que 1h de explicação semanal (e não é por não poderem pagar), culpando-me pelos maus resultados, sem verem que a L. não faz qualquer esforço em casa e sem que eles a ajudem. mas a culpa é sempre do professor, claro. damo-nos muito bem, mas é daquelas com quem tenho de manter uma certa distância, pois tende a abusar. infelizmente, ela sabe que precisa de mais ajuda. mas a família não quer dar-lha. e se a família não quer... o professor não pode fazer nada! e se a L. também não sabe ver quando está a ultrapassar os limites, também não consigo perceber bem o que se passa com ela.

 

MC - 10 anos. classe média-alta. 4.º ano. filha de jornalistas. mentirosa compulsiva. os pais transmitem-lhe a ideia de que é a melhor em língua portuguesa, só por eles serem jornalistas. o que não é verdade, a MC tem muitas dificuldades a português e a matemática. a MC mente em casa, mente na escola, mente no centro. umas vezes conseguimos perceber no momento, outras não. desde mentiras sobre o trabalho às dores falsas, já apanhámos tudo. é seguida no psicólogo, mas o trabalho que está a ser feito não está a ter qualquer resultado. continua a mentir, continua exibicionista... e compreender o motivo? será por o pai estar constantemente a viajar? serão ciúmes por a irmã mais nova estar mais tempo em casa? tem tudo o que quer, mas parece-me que lhe falta amor e carinho dos pais. se uns dias me parece que estou a conseguir avançar com ela, outros dias parece que volta tudo ao princípio e que ela não quer avançar! sei que com a minha paciência trabalha melhor do que com os berros e a impaciência de outras pessoas. gostava mesmo de conseguir compreender o que leva a MC a não nos deixar ajudá-la mais, mas ainda não foi possível. acho que sou como uma tia para ela.

 

e acabaram as meninas. amanhã começam os meninos. os mais problemáticos!

29
Mai17

o K. e a homossexualidade

miss queer

interrompemos a emissão para falar sobre o K.

comecemos pelo mau... que mãe é que manda o filho sem lanche e sem dinheiro para o comprar, sabendo que ele vai estar na explicação até às 20h15?!

mas pronto, isso não é o tópico principal... então não é que o rapaz hoje me veio falar sobre um casal de meninos e um casal de meninas? mas não com uma boa opinião...

e eu, sem revelar nada, tive de lhe explicar que tal como ele não escolheu gostar de meninas, essas crianças também não escolheram gostar de pessoas do mesmo género.

e a pergunta dele:

então mas e como é que têm filhos?

e eu, muito pacientemente:

ó K., mas tu só namoras com as meninas para teres filhos? não... então... além de que os meninos podem adotar. e as meninas têm outras opções, além da adoção.

e ele:

mas adotar fica muito caro!

e eu, sabendo que tinha de controlar cada palavra:

sabes, K., há meninas, como eu, que não podem ter filhos. e nem sequer precisam ser homossexuais. nesse caso, a adoção é a solução... já viste quantos meninos há a precisar de amor e sem pais para lhes dar?

e o K.:

pois é...

fez uma carrada de perguntas sobre o motivo de não poder ter filhos.

para terminar, voltei ao tema inicial:

agora, quando vires os meninos juntos ou as meninas, lembra-te que eles não pediram para serem assim e que têm tanto direito ao amor quanto tu.

 

não sei se ele ficou totalmente convencido... provavelmente amanhã volta ao tema. mas pelo menos já lhe limpei mais aquelas ideias retrógradas!

29
Mai17

os meus meninos - 1

miss queer

eu tenho muitos meninos. é injusto para eles que vos fale só do K., quando todos eles são tão especiais!

importa referir que alguns dos meus meninos têm diagnósticos de dislexia, disortografia, discalculia, défice de atenção, hiperatividade e doenças do espetro do autismo. sim, são escolhidos a dedo! também é importante dizer que alguns são acompanhados por psicólogos.

não vou falar de todos num só post, uma vez que ainda são alguns.

introdução feita, passemos a falar dos meus meninos. ou das minhas meninas, vou começar pelas meninas!

 

L. - 21 anos. depois de alguns anos sem estudar, em que andou a trabalhar para juntar dinheiro, decidiu ir este ano para a faculdade. trabalha de manhã e desistiu do trabalho à tarde para poder preparar-se para o exame. vive só com a mãe, pois o pai abandonou-as. não tem qualquer diagnóstico e eu também não a diagnostico com nada (sim, há casos em que não há diagnósticos feitos e que sou eu que percebo que existe algum problema). é das poucas alunas que lê por prazer, o que torna as explicações muito mais interessantes. mas tem um grande problema... falta de autoestima! está sempre a dizer que não sabe responder, que os textos que constrói não estão bons... e eu a imitá-la quando ela responde corretamente («não sei respondeeeeer!») e quando termino de ler os textos («isto está uma porcariaaaa!»). mas é em tom de brincadeira e a rir! rever as cantigas de amigo/amor/escárnio e maldizer com ela foi uma diversão.  quem me dera que alunos de 12.º ano soubessem tão bem a matéria quanto ela - faço questão de lho dizer. mas afinal tem mais dois problemas: o nome (não articulo os «Ls»), recuso-me a dizer o nome dela! (mas ela ainda não reparou que não o digo); e quando estou a ler os textos dela, fica a olhar para mim com ar de secretária porno. não se faz! mas, para resumir, esta é a minha aluna mais normal. as nossas explicações são como uma conversa entre amigas, com muita brincadeira pelo meio.

 

M. - 16 anos. lembram-se da minha sobrinha? pois, é a M.! desculpem, mas eu queria mostrar-vos o que ela escreveu e não queria dizer o que fazia! passando à frente. pertence à classe média-alta. no entanto, tem poucos hábitos de higiene, andando quase sempre com o cabelo oleoso. quando nos conhecemos, era uma miúda tímida, sem amigos, com a autoestima muito baixa. a M. quase não falava comigo ou com os meus patrões, que já conhecia há mais tempo. poucos meses depois, a M. parecia outra pessoa. a minha patroa diz que eu fiz um milagre com ela. tornou-se mais descontraída, mais extrovertida, já tem amigos e a autoestima subiu! ainda tem alguns complexos por usar óculos (tem muita graduação) e por a irmã ser o cisne enquanto ela é o patinho feio. quanto à escola... bem, ela ainda se desresponsabiliza e diz sempre que a culpa é dos professores. MAS diz que tudo o que sabe de português é graças a mim, fico orgulhosa. nas nossas explicações há espaço para falar sobre tudo: ela fala-me da pílula que queria tomar e não a deixam, fala-me dos colegas, fala-me da relação com a irmã... claro que eu aproveito tudo isso para a fazer escrever uns textos e ela lá vai aceitando - reclama, mas faz. a nossa relação não é de uma professora e de aluna, está mais para a de irmãs, em que eu lhe vou explicando a matéria e ela vai ouvindo, tendo espaço para desabafar sempre que precisa. o que é todas as explicações.

 

amanhã há mais, que isto já vai longo...

27
Mai17

o caso da escola de Vagos

miss queer

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2017-05-24-Escola-de-Vagos-castiga-alunos-por-protesto-contra-a-homofobia-e-preconceito

 

não sei se ouviram falar deste caso, mas pergunto-me (e estes jovens também se perguntaram), quantos casais heterossexuais terão sido chamados à direção por se beijarem?

que direção é esta?

de salientar a atitude destes jovens (acho que os meus meninos ainda não têm a mente tão aberta, infelizmente), que defenderam as colegas e bem!

26
Mai17

mau humor

miss queer

não, não estou de mau humor. ando até muito bem-disposta.

comecei a semana com um encontro de amigos e isso recarregou-me as baterias.

quando estou com os meus meninos, esquecendo os problemas que têm, também temos muito espaço para rir. e sim, a principal palhaça sou eu. (pobres crianças, sofrem um bocadinho comigo.) sempre que me dizem que não sabem fazer algo ou que fizeram algo e não está bem, após ler/fazê-los perceber que sabem fazer, segue-se uma imitação altamente dramática do que eles disseram.

mas não, não é disto que vos vou falar hoje.

 

vou falar-vos da senhora das limpezas da faculdade, que andava sempre trombuda.

imaginem que andavam com aquele carro que elas transportam, num elevador indisciplinado (quantas viagens lá fiz, porque as pessoas o chamavam e ele não parava onde eu queria!), em que entram dezenas de alunos que vos ignoram e que vos impedem de sair no vosso andar. imaginem ainda que acabaram de limpar as casas de banho e veem aqueles seres detestáveis a entrar e a sujar o que vocês acabaram de limpar, quando há outra casa de banho no piso inferior e outra casa de banho no piso superior. mais, imaginem que essas criaturas sujam o que vocês limparam e nem um pedido de desculpas vos dirigem!

poderia continuar, mas acho que já perceberam. é normal que a senhora andasse sempre de mau humor, certo?

 

eis que, certo dia, entro no elevador e está lá a senhora das limpezas. ficámos a sós.

com um sorriso e a olhar para a senhora: bom dia!

primeira reação: olhar para todo o elevador a fim de se certificar que estava a falar com ela. quando percebeu que sim, que era com ela...

segunda reação: sorriso rasgado. responde finalmente: bom dia, menina!

e ficámos as duas a sorrir. chegámos ao piso em que a senhora saiu.

MQ: tenha um resto de bom dia e bom trabalho!

senhora (a sorrir): para a menina também, muito obrigada!

e foi assim que passou a ser uma simpatia comigo e que me cumprimentava sempre que me via.

se tratarmos as pessoas com simpatia, receberemos simpatia.

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