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dez segundos

uma mulher, sempre à procura de se melhorar, com algumas coisas para dar e muito para receber.

dez segundos

uma mulher, sempre à procura de se melhorar, com algumas coisas para dar e muito para receber.

19
Mai17

K.

miss queer

sabem aqueles pais que andam o ano todo sem querer saber dos filhos e, quando chega o último período, se preocupam muitoooo? ah, e que, para eles, são os professores quem deve educar as crianças?

tenho um caso desses, em que os pais esperam de mim um milagre.

enquanto durante o resto do ano o K. teve 4h de explicação por mês, agora terá 6h por semana. e esta semana, como teve testes, somaremos 8h de explicação. juntem a isto aulas e apoios na escola. um abuso, certo? são 12h (das 8h às 20h) sempre a levar com matéria em cima. ninguém aguenta!

o pior é que ninguém na família acredita nele... só sabem criticá-lo, compará-lo à irmã gémea... sendo a autoestima do K. baixa, com tudo isto ainda fica pior. e estamos a falar de um menino de 11 anos.

o meu trabalho com o K. vai muito além de lhe explicar a matéria (ok, não só com ele, faço este trabalho com todos os meus alunos). tenho de fazê-lo acreditar que é capaz, fazê-lo acreditar em si próprio, dar-lhe o amor que não recebe em casa. que não recebe nem em casa da mãe nem em casa do pai.

não acreditam? o K. conta-me, muitas vezes, que esteve a jogar à bola com os amigos. conta-me boas jogadas que fez. uso isso para o motivar. contei isto à mãe. a resposta?

mas ele não é bom a jogar à bola nem tem amigos!

vá à merda! as crianças nestas idades não brincam juntas caso não gostem umas das outras! muito menos jogariam à bola com ele se o K. jogasse mal!

tive de aprender a aceitar que os pais não lutam por ele. e se eles não querem, não posso fazer nada. mas não foi fácil. o início da minha relação com o K. não foi o melhor - resistiu à minha chegada, desafiou-me, tentou que desistisse dele. em vão. -, mas em poucos meses conquistámo-nos. ver a forma como os pais desistiram dele é tão frustrante.

ontem fui ao centro, de propósito, para lhe dar explicação. o tempo a passar e ele sem aparecer. quase 1h depois, aparece com a irmã. a mãe tinha-lhe dito a hora errada. pedi-lhe desculpa, mas tinha de me vir embora. liguei à mãe e, educadamente, expliquei-lhe que não daria a explicação, mas que a mesma teria de ser paga.

ontem descobri ainda que, sempre que falha, leva porrada do pai. não é só ele, também acontece com os irmãos. e não, não falo de uma chapada. e apanham por motivos como: atrasarem-se a sair de casa uns minutos. falamos de um homem com boa apresentação, bem falante, com dinheiro, com estudos. para a semana terei de dar explicações ao K. em casa deste homem. rezem por mim, para que ele tenha viajado! espero que, à semelhança do que aconteceu no resto do ano, não me volte a cruzar com ele. este homem - porque de senhor não tem nada - fez-me perder todo o respeito que lhe tinha.

neste momento, só espero conseguir o milagre que os pais esperam de mim. não por mim, mas pelo K., que merecia uns pais que lutassem por ele e que o pusessem à frente do dinheiro.

com a vossa licença, «pais» não se pode chamar mãe nem pai a estes seres, já que pensam que são os professores que devem educar os vossos filhos, deixem-me trazê-los cá para casa! gosto muito dos três. sim, até dela, apesar desse ar arrogante... depois de vos conhecer, percebo perfeitamente que é só uma defesa.

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